A Manipulação da Realidade: Como a imagem Audiovisual é Usada para Controlo e Propaganda

Na era digital, a informação é mais acessível do que nunca. No entanto, essa abundância de dados e imagens nem sempre reflete a verdade. A forma como consumimos as histórias e as notícias é moldada por quem detém o poder – e, ao longo do século XX, o cinema e a televisão desempenharam um papel crucial na criação e disseminação dessas narrativas. A manipulação da realidade, tanto em tempos de guerra como em tempos de paz, é uma constante. Hoje, com as novas tecnologias, essa manipulação continua a evoluir, criando uma realidade ainda mais complexa e difícil de distinguir da verdade.

A Arte da Manipulação Audiovisual

Desde os primeiros Newsreels da Segunda Guerra Mundial até as redes sociais e algoritmos atuais, os meios audiovisuais têm sido usados como ferramentas poderosas para controlar a opinião pública. Através de imagens cuidadosamente selecionadas e narrativas estrategicamente moldadas, aqueles que detêm o controlo dos meios de comunicação têm a capacidade de influenciar e até mesmo manipular a percepção da realidade.

A instalação de arte “Ghost in the Machine” explora essas dinâmicas. Com sete televisores como suportes, a instalação revela como a narrativa visual, seja por meio de cinema, televisão ou novas tecnologias digitais, tem sido usada para promover e sustentar ideologias políticas, interesses económicos e o poder de elites dominantes.

A Manipulação ao Longo da História

Durante a Segunda Guerra Mundial, os Newsreels eram uma das principais formas de disseminação de informação. Estes Newsreels, exibidos nos cinemas antes dos filmes, eram usados para glorificar as vitórias e heroísmos, enquanto ocultavam derrotas e momentos de fraqueza. A propaganda era evidente: através de imagens de líderes como Winston Churchill e Adolf Hitler, os Newsreels moldavam a percepção pública e elevavam o moral das tropas e da população, criando uma narrativa favorável aos interesses dos governos em guerra.

Hollywood, por sua vez, desempenhou um papel semelhante, tornando-se uma máquina de propaganda de massa. Filmes como Top Gun e Argo não apenas entreteram, mas também propagaram ideologias políticas e culturais, promovendo uma visão idealizada da guerra, do heroísmo e da “glória” militar. As imagens da tela grande influenciaram gerações, ajudando a consolidar o “sonho americano” e a glorificar certas políticas.

A Nova Era das Redes Sociais e a Manipulação Digital

Com a chegada da Internet e das redes sociais, o cenário de manipulação visual e narrativa ganhou uma nova dimensão. Hoje, os algoritmos das redes sociais, como o Facebook ou Instagram, determinam o que vemos, criando uma realidade personalizada e muitas vezes distorcida. Ao filtrar conteúdos com base nos nossos gostos e comportamentos, os algoritmos agem como novos “gatekeepers”, controlando não apenas as notícias que consumimos, mas também as ideias que moldam as nossas crenças e atitudes.

Durante as eleições presidenciais de 2016 nos EUA, por exemplo, a Cambridge Analytica utilizou dados de milhões de utilizadores do Facebook para segmentar e personalizar campanhas políticas, espalhando desinformação e criando campanhas de influência massiva. O uso de dados pessoais tornou possível criar uma narrativa única e persuasiva, manipulando comportamentos e resultados eleitorais.

Além disso, as redes sociais também deram espaço ao “jornalismo cidadão” – onde qualquer pessoa pode publicar e partilhar notícias. Embora isso tenha democratizado a informação, também abriu a porta para a desinformação e as fake news, onde vídeos e fotos falsas se espalham mais rápido do que a verdade pode ser verificada. Em momentos de crise, como na pandemia de COVID-19, a desinformação proliferou nas redes sociais, com teorias da conspiração e informações incorretas sendo partilhadas em grande escala, gerando pânico e desconfiança.

Deepfakes: A Nova Fronteira da Manipulação Audiovisual

Hoje, o advento dos deepfakes representa uma nova fronteira da manipulação visual. Utilizando inteligência artificial, vídeos podem ser criados para parecer que uma pessoa disse ou fez algo que nunca aconteceu. Líderes políticos, celebridades e figuras públicas têm sido alvo de deepfakes, onde os seus rostos e vozes são substituídos por versões manipuladas, criando realidades fictícias extremamente convincentes.

Os deepfakes não são apenas um fenómeno de entretenimento ou sátira, mas também uma ferramenta perigosa de desinformação e propaganda. Estes vídeos têm sido usados para espalhar mentiras, incitar o medo e até para manipular eleitores durante períodos eleitorais. O poder de alterar a perceção do público, criando uma “verdade” artificial, é imenso.

A Manipulação da Informação: Três Lados de Cada História

No cerne da instalação está a mensagem de que as histórias que consumimos raramente refletem uma verdade absoluta. Elas são, frequentemente, versões manipuladas que servem aos interesses de quem as apresenta. A instalação desafia o público a questionar as informações que recebe e a refletir sobre o poder das narrativas visuais.

Como diz a famosa frase:
“Há três lados em cada história: o teu, o meu e a verdade.”

Esta instalação é um convite para que os visitantes parem e pensem criticamente sobre o que é mostrado nos ecrãs. Ela nos lembra de que as narrativas, sejam elas antigas ou modernas, são frequentemente moldadas por aqueles que controlam as ferramentas de comunicação – e que, ao fazer isso, podem controlar o poder e as percepções da sociedade.

Conclusão: A Necessidade de Pensamento Crítico

A manipulação de informações audiovisuais não é algo novo, mas o impacto das tecnologias modernas tornou essa manipulação ainda mais sofisticada e perigosa. Com o domínio dos algoritmos, o crescimento das redes sociais e o uso de deepfakes, a verdade tornou-se algo maleável. A instalação busca alertar para os perigos dessa manipulação e sublinha a importância de pensar criticamente, procurar múltiplas perspectivas e resistir às narrativas simplificadas que nos são apresentadas.

Através desta reflexão, somos desafiados a reconhecer que, no mundo moderno, a verdade não é algo dado. A verdade é algo que devemos procurar, questionar e proteger.