Network (1976)

O filme “Network” de 1976, realizado por Sidney Lumet foi uma das minhas inspirações para a criação do meu artefato.

O filme “Network” mostra de forma brilhante como a televisão e os meios audiovisuais podem ser usados para manipular a perceção das pessoas e consolidar poder. Ao explorar temas como a ganância das grandes empresas, a manipulação do público, a alienação social e a desumanização causada por um capitalismo desenfreado, o filme revela como as imagens e os sons que consumimos diariamente moldam a nossa visão do mundo e as nossas emoções, muitas vezes sem que nos apercebamos disso.

No caso do protagonista, Howard Beale, vemos como a sua indignação e desespero autênticos, expressos em discursos emocionantes, são rapidamente transformados em entretenimento. A estação de televisão aproveita o impacto que ele tem nas pessoas e transforma-o numa espécie de “profeta televisivo”, utilizando luzes dramáticas, ângulos de câmara intensos e uma montagem cuidadosamente calculada para amplificar o efeito da sua mensagem. No entanto, em vez de inspirar uma verdadeira mudança social, a sua mensagem é esvaziada, reduzida a mais um produto para atrair audiências e gerar lucro.

Esta abordagem levanta uma questão importante: até que ponto as imagens audiovisuais que consumimos são genuínas? O filme mostra como estas podem ser manipuladas para provocar reações emocionais – medo, raiva, esperança – que muitas vezes servem interesses corporativos ou ideológicos, e não as necessidades das pessoas. Tal como acontece com Howard Beale, a emoção que inicialmente é real e honesta acaba por ser explorada e reciclada para manter as pessoas entretidas, mas conformadas.

Além disso, o filme alerta para o poder da propaganda visual. Seja na televisão dos anos 70 ou nas redes sociais de hoje, imagens e vídeos são usados para repetir mensagens de forma tão eficaz que muitas vezes aceitamos as narrativas que nos são apresentadas sem questionar. Estas narrativas podem reforçar ideias que mantêm o status quo ou nos distrair de questões importantes. É a velha lógica de “pão e circo”, mas amplificada pelo poder da tecnologia audiovisual.

“Network” continua a ser incrivelmente atual porque levanta questões que ainda hoje são relevantes: como é que os media moldam o que pensamos? Quem controla as histórias que nos são contadas? E como podemos garantir que as nossas emoções e a nossa atenção não sejam manipuladas para servir interesses que nada têm a ver connosco? O filme é, acima de tudo, um alerta para estarmos mais atentos ao que consumimos e para não aceitarmos tudo o que nos é apresentado como verdade.

O filme oferece uma crítica profunda e visionária ao papel dos média na sociedade, destacando os riscos da espetacularização, da manipulação emocional e da fusão entre poder político e económico.

  • O filme retrata como os média transformam notícias e política em entretenimento, priorizando audiências e lucros sobre a verdade e o interesse público.
  • A personagem Howard Beale, um apresentador de televisão que se torna uma figura messiânica, simboliza a fusão entre jornalismo, espetáculo e manipulação emocional.

Em comparação à atualidade, vemos este controlo com a influência das grandes corporações tecnológicas (ex.: Facebook, Google) na moderação de conteúdos políticos e na formação de bolhas ideológicas.

  • O filme critica a transformação da informação numa mercadoria, onde o valor jornalístico é substituído pelo sensacionalismo e pelo lucro.
  • A rede de televisão UBS prioriza programas chocantes e controversos para aumentar as audiências, mesmo à custa da ética e da verdade.

Em comparação à atualidade, podemos discutir o papel das redes sociais na amplificação de conteúdos sensacionalistas, tanto pelo governo como pela oposição, e as suas implicações para a democracia.

  • O filme mostra como os média exploram as emoções do público (ex.: raiva, medo, indignação) para criar engajamento e lealdade.
  • O slogan “I’m as mad as hell, and I’m not going to take this anymore!” torna-se um grito de guerra emocional, manipulando o público para fins comerciais e políticos.

Em comparação à atualidade, podemos analizar o uso de slogans como “Make America Great Again” e o uso de hashtags com “MeeToo” e “BlackLivesMatter”

  • O filme denuncia a aliança entre os média e o poder económico, onde as notícias são moldadas para servir interesses corporativos e políticos.
  • A personagem Arthur Jensen, CEO da corporação que controla a UBS, representa a fusão entre capitalismo e autoritarismo, onde a verdade é subordinada ao lucro. 

Em comparação à atualidade, podemos comparar este controlo com a influência das grandes corporações tecnológicas (ex.: Facebook, Google) na moderação de conteúdos políticos e na formação de bolhas ideológicas.

  • O filme alerta para o papel dos média na erosão do espaço público democrático, onde a verdade é substituída por entretenimento e manipulação.
  • A ideia de que “os média não estão aqui para nos informar, mas para nos vender” reflete uma crítica profunda ao papel dos média na sociedade contemporânea.

Em comparação à atualidade, podemos discutir como o uso de narrativas transmedia pelo chavismo contribuiu para a polarização e a erosão do debate democrático na Venezuela.

No meu PMAD pretendo usar intercaladamente as mensagens daqueles que têm o Poder e aqueles que o pretendem derrubar o regime e alcançar o Poder. 

Um resumo do seu impacto no cinema pode ser lido aqui nesta crítica do The Guardian